No compasso do contracheque

Comércio e serviços sofrem com o parcelamento dos salários de 617 mil servidores mineiros

LUDMILA PIZARRO E QUEILA ARIADNE

Todo mês, Raquel Cunha, 40, tem uma única certeza: a de que o salário de professora da rede estadual será parcelado em, no mínimo, três vezes. Já as dúvidas são inúmeras. “Não consigo planejar os gastos e não sei qual conta vou pagar. Tento priorizar as pessoas, como o motorista do escolar do meu filho”, afirma Raquel. A biomédica Paula Cardoso, 40, também já não sabe mais o que fazer para administrar um orçamento em que as contas chegam primeiro do que o salário. “Tive que fazer um acordo com a escola da minha filha”, conta. Raquel e Paula estão entre os 617 mil servidores do Estado que sofrem com o atraso no pagamento, parcelado desde fevereiro de 2016. A folha de pagamento de Minas é de R$ 3,2 bilhões mensais. Mas o total de pessoas que vivem no compasso do contracheque é muito maior, pois, para cada salário que não é pago em dia, muitos comerciantes e prestadores de serviços também não recebem.

E assim começa a ciranda de queda no consumo e aumento da inadimplência. Um levantamento do Serviço Central de Proteção ao Crédito (Boa Vista SCPC), feito em 11 grandes cidades, mostra que Belo Horizonte tem o pior índice de recuperação de crédito do país. No primeiro semestre deste ano, enquanto o total de pessoas que conseguiram limpar o nome caiu 1,2% no Brasil em comparação com igual período de 2017, na capital de Minas Gerais o índice despencou 5,9%. No Rio de Janeiro e em Porto Alegre, onde os governos estaduais também estão com dificuldade, a recuperação do crédito subiu 0,2% e 4,3%, respectivamente.

“Um dos efeitos do parcelamento do salário é a perda da capacidade de pagamento, pois retira renda das pessoas. O poder de compra cai, as pessoas não conseguem limpar o nome, e o consumo também cai”, explica o economista da SCPC Flávio Calife. Para Paula, essa capacidade de pagar em dia ficou ainda mais complicada a partir de junho deste ano. “Até então, o Estado pagava a primeira parcela de até R$ 3.000 de uma vez. Agora, até a parcela começou a ser parcelada. Recebi só R$ 1.500 e tive que priorizar a comida. Expliquei a situação na escola da minha filha, e me deixaram depositar direto na conta da escola, depois que eu receber, para não ter que pagar os juros”, conta.

As escolas particulares também estão vivendo à espera do contracheque do servidor. “Trabalhamos com muitos funcionários públicos e temos recebido vários pedidos para alterar o vencimento, prorrogar a data de pagamento e até parcelar a dívida”, destaca a presidente do Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (Sinep), Zuleica Ávila.

Cláudia Etrusco Tavares, 45, trabalha no Estado há 22 anos e conta que já passou por muitas crises. “Já tive o 13º dividido em 12 parcelas, já tive atraso de pagamento e passei por escalonamento. Mas nunca demorou tanto para passar”, conta a servidora, que até o dia 28 de agosto, só tinha recebido metade de uma parcela. “Não dá para pagar as contas, e a insegurança é grande, pois a gente não sabe como vai ser o mês seguinte. Comprar qualquer coisa supérflua virou um ato de suicídio.”

O efeito cascata já transbordou sobre o comércio. “Com receio de não receber, eles não assumem nenhum compromisso. Muitos recorrem aos pais aposentados, que mal têm dinheiro para pagar remédios e plano de saúde. Eles também deixam de comprar, o que acaba aumentando o índice de inadimplência”, destaca o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH), Bruno Falci.

Bolo de nozes, só no pagamento
Vinícius Dantas não é servidor estadual, mas, assim como qualquer funcionário público de Minas, vive de olho na escala de pagamento. Dono de cinco padarias, ele administra o estoque de acordo com a tabela divulgada pelo governo do Estado. “Eu acompanho as datas atentamente. Quando o pagamento é confirmado, eu aumento a produção. O pão de sal, por exemplo, mando fazer 15% a mais. Já alguns produtos mais específicos, como o bolo de nozes e a rosca de leite condensado, eu só faço quando o salário é pago”, explica.

Dantas é presidente da Associação Mineira da Indústria da Panificação (Amipão) e destaca os impactos que o setor vem sofrendo. “Como os clientes estão sem dinheiro, até mesmo compras pequenas, de R$ 10, estão sendo passadas no cartão de crédito. Isso é péssimo para o capital de giro da padaria, que fica sem caixa”, conta. Há um ano, o cartão representava 40% das transações nas padarias. Agora, a participação subiu para mais de 50%.

Renata Reis é outra que precisou ajustar as contas da empresa à tabela de pagamento. “Eu tenho um ateliê de costura, e, atualmente, 25% das clientes são servidoras. Como elas não estão recebendo em dia, eu não tenho outra saída a não ser dar mais prazo. Eu entendo, pois meus pais são servidores e estão passando por isso”, justifica. Dos 617 mil servidores, 47% são aposentados.

Sem previsão de normalizar

Segundo a Secretaria de Estado da Fazenda, não há previsão para acabar com o escalonamento salarial. A principal justificativa do governo é que o déficit fiscal herdado da gestão anterior não possibilita o pagamento integral até o quinto dia útil.

Em entrevista à rádio Super Notícia 91,7 FM, no dia 30 de agosto, o governador Fernando Pimentel disse que não há atraso. “Se você está pagando dentro do mês, você está pagando regular”, disse. No mês passado, a primeira parcela saiu no dia 16.

Fonte: O Tempo

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