Salário de servidor não entra no bolso e esvazia comércio

É como se os funcionários de 41 empresas do porte da Fiat não recebessem o salário de uma vez; funcionalismo representa 8,6% do potencial de consumo de Minas

LUDMILA PIZARRO E QUEILA ARIADNE

O descompasso entre o salário que não é pago na data esperada e as contas que não param de chegar está tirando o poder de compra de muita gente. Segundo a Secretaria de Estado da Fazenda de Minas Gerais, a folha mensal de pagamento de todos os servidores é de R$ 3,2 bilhões. Esse é o total que deveria entrar na economia mineira, de uma só vez, mas o valor esta sendo dividido em no mínimo três parcelas. O comércio já está sentindo os efeitos da insegurança dessa massa de consumidores, que representa 8,6% do potencial de consumo de todo o Estado.

Para estimar esse percentual, a reportagem considerou o levantamento do Índice de Potencial de Consumo dos Estados Brasileiros (IPC Maps). Segundo a pesquisa, que disponibiliza informações de todos os municípios brasileiros, Minas Gerais tem um potencial de consumo de R$ 444,42 bilhões por ano. Já a folha de pagamento soma R$ 38,4 bilhões em 12 meses.

“O não pagamento do servidores públicos em dia retira essa renda disponível do comércio, e as vendas tendem a cair. Já sentimos essa redução nas datas comemorativas, pois as vendas ficaram abaixo do previsto”, destaca a economista da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL-BH), Ana Paula Bastos. Para o Dia das Mães, a previsão era vender 2,76% a mais em relação ao ano passado, mas o crescimento foi de 2%. No Dia dos Namorados, a expectativa era crescer 2,3%, mas as vendas subiram só 1,63%.

O coordenador do MBA em gestão financeira da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ricardo Teixeira, afirma que, quando esse volume de servidores não recebe, é como se várias empresas atrasassem, ao mesmo tempo, os salários. Para se ter uma ideia do tamanho do impacto do escalonamento dos 617 mil servidores, basta comparar com uma grande indústria como a Fiat, por exemplo, que tem 15 mil funcionários. É como se os trabalhadores de 41 montadoras desse porte ficassem sem receber integralmente.

“O efeito cascata é enorme, principalmente porque os servidores públicos têm uma remuneração melhor do que a média, e esse dinheiro deixa de circular. Eles compram menos nos supermercados, cortam o lazer e serviços. Sofre toda a sociedade”, analisa Teixeira.

“No caso da comida, parcelo no cartão de crédito. A gente não tira férias mais porque não pode viajar. Não tem lazer, não tem mais nada”, desabafa uma servidora, que pediu para não ser identificada. Ela faz parte do público-alvo de Aline Morgana, 40, que chegou a ter três lojas no mall da Cidade Administrativa, mas fechou duas. “Estou fazendo muitas promoções, mas, com essa questão do parcelamento, os clientes não estão comprando. Cheguei a ter quatro funcionárias e hoje só tenho uma”, conta Aline.

Empréstimos e juros por atraso viraram rotina

Em um mês, a aposentada Verônica dos Santos, 72, pediu à sobrinha R$ 500. No outro mês, pediu emprestado à irmã. “Quando chega a parcela, só dá para pagar as dívidas. Eu saio distribuindo o dinheiro e não sobra para mais nada”. A alternativa foi a forma de escapar dos juros, mas nem todos podem contar com parentes. “Fiz concurso acreditando na capacidade de pagamento e na estabilidade, mas, agora, o servidor perdeu a credibilidade de bom pagador. Muita vezes, a saída é pegar um empréstimo”, conta uma servidora, que pediu para não ser identificada.

A professora Raquel Cunha, 40, não chegou a pedir empréstimo, mas nem por isso está livre dos juros. “Estou sempre pagando as contas atrasadas, porque não recebo antes do vencimento. Seria bom se a Cemig e a Copasa também deixassem a gente parcelar”, diz.

Para a professora de finanças da Una Vaníria Ferrari, além de retirar poder de compra daqueles que recebem atrasado, o parcelamento reduz os salários, uma vez que, ao pagarem juros por atraso, os consumidores ficam com menos dinheiro. “Eu vejo três grandes impactos. O primeiro é o aumento da inadimplência, pois as contas começam a acumular. O segundo é a imprevisibilidade, que reduz os planos de consumo. O terceiro reflexo será sentido no PIB de Minas, que vai cair ou vai crescer menos”, destaca.

Para salvar vendas, lojas esticam prazos e encolhem preços

Em dois anos, a empresária Aline Morgana, 40, viu as vendas da loja de calçados cair entre 30% e 35%. O tíquete médio, que era na faixa de R$ 119, hoje não passa de R$ 79. Para manter a unidade – última das três que Aline tinha na Cidade Administrativa –, a comerciante tem adaptado o estoque e abusado das promoções. “Sentimos muito com o parcelamento do salário do servidor. Tivemos que ajustar várias coisas, mudei a linha de produtos e estamos trabalhando com um preço médio menor. Não trabalho mais com bolsa de couro, só bolsa de material sintético, porque é um preço melhor”, conta.

Liquidação e desconto no cartão de crédito têm sido grandes aliados. “Mesmo com todas as taxas, estou dando desconto de 10% no cartão. Para dinheiro, subo para 20%”, diz.

Há quatro anos, a vendedora de roupas Jeanny Oliveira de Souza, 45, participa de uma feira mensal na Cidade Administrativa. Nesse período, sentiu um mudança brusca no comportamento do cliente e, consequentemente, no bolso. “As vendas caíram 60%. O que mais escuto é: ‘ a gente não recebeu, o que a gente recebeu é para pagar o cartão’. Quem comprava cinco blusas, hoje compra uma”, relata Jeanny. “Participo de outras feiras em Belo Horizonte e vejo que a questão do parcelamento não está afetando só aqui (Cidade Administrativa), está afetando a cidade inteira.”

Wesley Cardoso, 39, tem uma loja de manutenção de celulares e também sentiu. “As pessoas só estão fazendo consertos mais baratos”, afirma o empresário.

Fonte: O Tempo

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